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domingo, 1 de setembro de 2013

A Biblioteca. - Parte 3


   Ela queria poder ser lembrar daquele sorriso pro resto de sua vida. Lá estava ele, a esperando na frente do parque com um maço de flores na mão. Não se lembra de saber qual flor era, mas eram vermelhas e pequenas. O sorriso era o mais doce possível. Como o da criança que espera por algo há muito tempo, misturado com um ar sexy de brincadeira.
   - Oi, tudo bem?
   - Tudo ótimo e você? Ah, espero que goste. - Entregou as flores.
   - São lindas. - Eram suas primeiras flores, e sua primeira reação foi levá-las ao nariz. Perfumadas.
   - Hoje quero te levar em um lugar diferente, aceita? - Pegando a mão dela e entrelaçando seus dedos. O gesto a fez corar. Ele não tinha a intenção de soltar.
   - Aceito. - Com um sorriso tímido, o único que conseguia expressar.
   Ele a levou pra andar em uma avenida antiga da cidade, onde a primavera cobria os ipês com flores, e depois a um café. A cada assunto diferente, ela podia ver, ele era diferente da maioria dos caras da faculdade. Daqueles que procuram apenas um romance barato de uma semana. Ele falava extremamente bem, o que a encantava. A tarde passou voando, e ao chegar no ponto de ônibus, sentiu uma pontada de tristeza pela despedida.
   - Eu não queria deixá-la aqui agora.
   - E eu não queria que me deixasse, mas, outro dia a gente se vê.
   - Sim, se cuida.
   Quando se virou, ele a puxou com uma das mãos e com a outra trouxe delicadamente sua cabeça a se juntar na dele. Foi aí que a beijou. Um beijo doce e com vontade, onde segurou sua cabeça o bastante para prolongar o beijo. Aquilo a extasiou. Tanto que a vontade de repeti-lo voltou em seus sonhos. Talvez foram as flores em sua cabeceira.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A Biblioteca - Parte 2


   Por que a fuga mais esperta de todos é ficar olhando pra sua bebida ao invés de tomá-la? Foi assim que ela passou a manhã toda no trabalho. Ela não poderia simplesmente sumir, não. Mas e se houvesse más intenções? E se tudo não passasse de uma brincadeira? Não saberia se não tentasse. Louca. Assim que sua intuição a chamava. Nada ganha de sua curiosidade, nem mesmo o medo.
   Chegando o entardecer, sua pele já sentia calafrios e seu medo voltara a aparecer, e logo que pisou na entrada do parque, olhou disfarçadamente a procura de alguém em especial. "Oras, como vou saber quem é? Nada de pistas nem fotos ou algum desenho". Para sua sorte, a biblioteca estava movimentada, para seu azar, haviam muitos estudantes sentados, a maioria sozinhos. Alguns olhares para ela, mas nada que comprovasse algo.
   Sentou em uma das mesas próxima a janela, jogou sua bolsa e sua pasta de desenhos em cima da mesa, pegou o livro da lista que já estava com ela e começou a ler. Logo se perdeu em meio as páginas, a verdade era que os livros eram seus fracos, sua mente viajou, até que uma mãozinha a cutucou. Era um menino que parecia ter uns 4 anos, loiro com franja e um papel dobrado na mão.
          - Moça, pra você.
          - Oi? Quem te mandou mocinho?
          - Ele pediu pra não dizer, e eu não quebro promessas.
          - Ok então, não vou deixar quebrar, mas é só isso?
          - Ah não. - Pegou com suas mãozinhas pequenas o rosto de Clara e lhe deu um beijo apertado na bochecha, um gesto que a fez sorrir.
          - Foi ele que pediu também?
          - Não, esse foi eu que quis dar.

   Saiu correndo como se não tivesse feito nada demais. Clara o acompanhou com os olhos, mas sem resultado. O menino com cara de anjo correu pro colo de sua mãe que estava na sessão de revistas ao longe. Seus olhos correram por entre as estantes, e foi aí que viu algo. Alguém a olhando atrás do balcão. Um rosto familiar olhando fixamente pra ela, com um sorriso no canto da boca. Era alto e tinha o cabelo levemente bagunçado em um topete, sua pele era clara, não mais que a sua com certeza, e seu olhar marcante. Não conseguiu lembrar de onde tinha o visto. Por longos segundos se entreolharam. Foi aí que lembrou do papel, pegou e o abriu rapidamente.

   "Não sabia se seria curiosa o bastante, foi bom ter te visto de novo aqui. Espero muito conhecê-la. Venha amanhã ao entardecer e prometo não ficar apenas em papéis. Com apreço. Felipe"

Quando olhou novamente para o balcão, não havia ninguém. Apenas a lembrança de um sorriso vago.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A Biblioteca - Parte 1


   Tudo estava como de rotina. O dia fresco ao entardecer, com uma leve brisa gelada. E como qualquer outro, ela estava indo à biblioteca. Onde seus pensamentos mais ruins se espalhavam como poeira entre os livros, e só restava a vontade de se perder dentre tantas histórias melhores que a dela.
   A biblioteca ficava no meio de um parque. Diferente de outras, aquela havia janelas em todos os lados, e a vista eram as árvores e ramos subindo em cada lugar que conseguiam se enroscar. Realmente, não existia melhor lugar pra ficar. Poderia contar, já lera metade dos livros ali, mesmo que sempre chegassem livros novos.
   Foi até a prateleira mais antiga, como de costume, e, em sua sequência de memória, faltavam três para serem lidos. Foi arrastando os dedos em capas velhas e contando... 1..2..3..4. Eram quatro, e o  n°4  era um caderno de desenho. Seria impossível não ter notado que haviam quatro antes. Não se encaixava na sessão por ter uma capa nova. Automaticamente puxou esse. Sua capa era de um marrom de couro, folhas grossas e levemente amareladas, com um elástico prendendo as folhas. Primeira folha:

   "Serei louco em querer ver cada traço de cor dos seus olhos? Assim, de perto, do modo que a proximidade me permita sentir teu perfume. Se permitir, esqueça o livro dentre todos os velhos e venha todos os dias ao entardecer."

   Segunda folha: Um desenho. Se fosse qualquer outro desenho, ela simplesmente ficaria encantada com um possível romance gostoso de se ler. Mas não. Era um desenho dela, e mais nada. Todas as outras folhas em branco. Claro que pode identificar os cabelos desenhados até a cintura, um arco com um laço na cabeça e seu escapulário, com as duas partes pra frente. Será que alguém tem um igual a esse? Foi o primeiro pensamento, pensamento bobo de alguém assustado que quer negar o que acabou de ver. Seus traços do rosto estavam perfeitamente desenhados entre rabiscos na folha.
   Fechou o caderno com as mãos tremendo e o colocou no mesmo lugar. Sem olhar pros lados para não chamar atenção, andou (ou tentou) andar o mais normal possível até a saída. Uma onda de medo e curiosidade invadiu sua mente que a deixou cambaleante quando se afastou do parque. Seus dedos procuraram rapidamente os fones de ouvido dentro da bolsa, e andou pra longe dali. Sem pensar em nada.